quinta-feira, 16 de julho de 2009

Beleza Roubada (Bertolucci,1996)

Todo cinéfilo que se preze sabe que Bertolucci é sempre digno de ser visto. Ao mesmo tempo que eu me sinto completamente indentificada com Lucy Harmon, personagem de Liv Tyler, não tenho nada em comum com ela. Lucy viaja para a Itália, na bela e renascentista Toscana, após a morte de sua mãe, com a desculpa de ter seu retrato pintado por um velho amigo da família, que é artista plástico. Lucy, na verdade, viaja para reencontrar o garoto que lhe deu seu primeiro beijo e descobrir alguns mistérios encobertos pela mãe. Apesar de ser um enredo delicado, o filme é despido de pudor. Contradições são típicas de Bernardo Bertolucci.

terça-feira, 14 de julho de 2009

DIES IRAE

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação, E o pior - vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? E por que, só porque eu escrevi, pensam que tenho que continuar a escrever? Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, e que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração.
E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou pra viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. E criaram o Dia dos Analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre e quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera.


Clarice Lispector

Alma Prolixa

Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.
Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calmo e perdôo logo.
Não esqueço nunca.
Mas há poucas coisas de que eu me lembre.

Lispector, C .(1969). Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.


God save the kings

domingo, 12 de julho de 2009

Meu corpo é uma jaula

Estou parado sobre um palco de medo e indecisão. O espetáculo é péssimo, mas mesmo assim, a platéia vai aplaudir. Estou vivendo em uma era, que chama a escuridão de luz. Apesar da minha língua ter sido assassinada, as metáforas ainda me satisfazem.

(Arcade Fire)
As letras combinadas constituem corpúsculos, glóbulos, plaquetas, hemáceas...que quando transformadas em música, nada mais é que o puro sangue escoado da minha alma.

As verdades devem se manter secretas

Uma alma não deve rasgar-se, expondo completamente os mistérios a que lhe refere. Um homem deve dar aos espectadores somente pequenos fragmentos de sua alma, mas apenas o suficiente para não enlouquecer-se de claustrofobia espiritual. Os espectadores devem interpretar por sí mesmos as qualidades de tal alma, sendo que a essência absoluta daquele ser deve permanecer para sempre secreta.